Segunda-feira, Julho 13, 2009

Leituras sobre Carris



Uma Conspiração de Estúpidos - John Kennedy Toole

Há muitos anos, enquanto procurava um livro para oferecer a um amigo pelo seu aniversário, encontrei este livro. Não conhecia; li o resumo e a biografia que a editora colocara no livro. Soube logo que o meu amigo iria gostar, o que se confirmou quando lhe o ofereci (na altura, era fácil descobrir os presentes ideais para os amigos que ainda não tinham desaparecido por entre a selva da paternidade). Ele conhecia o livro mas ainda não o lera.
Tantos anos depois, a Sábado colocou o livro pelo meio de uma das suas "bibliotecas". A nota mental que há muito tinha ficado esquecida ("tens de ler isto") foi finalmente satisfeita.
Muito bom.
Ignatius J. Reilly é uma enorme personagem.

Domingo, Julho 05, 2009

Leituras mui recomendáveis

Excelente notícia esta da publicação em português de mais alguns livros de Evelyn Waugh, um dos meus autores favoritos.

Relógio D’Água Editores:
A Relógio D’Água vai publicar as Obras Escolhidas de Evelyn Waugh. Além do já saído Reviver o Passado em Brideshead, serão editados Declínio e Queda, Corpos Vis, Malícia Negra, Enviado Especial e a trilogia Homens em Armas, Oficiais e Cavalheiros e Rendição Incondicional.
Em Portugal estão publicados na Cotovia outros livros do autor, como Ente Querido e Um Punhado de Pó.


Evelyn Waugh (por Henry Lamb)

Leituras sobre Carris



Os Nomes - Don DeLillo

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Virginia

Sempre com o olho no dinheiro alheio

Para os espaciais candidatos do Bloco de Esquerda, os Marcianos estão sempre dispostos a pagar-lhes os custos.
Não há ninguém que explique a estes esquerdistas que são os impostos (em grande parte do proletariado a quem prometem que  tudo pode ser gratuito) de todos os já exauridos contribuintes que no fim têm de suportar as suas... à falta de melhor palavra... ideias?
Talvez seja por muitos deles serem funcionários estatais, sem suportar uma efectiva taxa de imposto sobre os seus rendimentos, por isso lhes seja fácil sugerir tantas maneiras de usar o resultado do trabalho, poupança e investimento alheio.

"O candidato à presidência da Câmara de Setúbal pelo Bloco de Esquerda (BE), Albérico Afonso, convidou Heitor de Sousa, economista especialista em transportes públicos, para responder aos problemas apresentados.
(...)
“Os transportes públicos deveriam ser gratuitos” e os poderes públicos deveriam assumir a diferença entre custo e preço defendeu Heitor de Sousa.
(...)
Quanto a uma autoridade que regule a mobilidade e que promova investimentos, o deputado municipal na Assembleia de Lisboa esclareceu que existe uma “figura de lei desde 1990 mas que nunca saiu do papel porque nunca foram criados organismos de financiamento. A entidade está formalmente criada mas na prática não se sabe onde ir buscar o dinheiro”."



Quinta-feira, Julho 02, 2009

O peso da realidade

Para os que insistem nas (caducas) grelhas de leitura económica, a retoma estava ao virar da esquina. E o arranque da economia americana iria fazer-nos regressar ao tempo da prosperidade. Tudo não passaria de um pesadelo.
Só que mais uma vez a realidade teima em desmentir as preces dos analistas financeiros do costume, os tais que continuam enxamear as páginas dos jornais e nos entram casa adentro via televisões.
Os números do desemprego nos Estados Unidos aí estão para demonstrá-lo:

The U.S. economy lost 467,000 jobs in June as the national unemployment rate rose to 9.5 percent, the government announced on Thursday morning. While that's only one-tenth of a percentage point from May, the current rate is the highest rate in 26 years.

Heidi Shierholz, an economist with the Economic Policy Institute, said that the loss of 6.5 million jobs since the start of the recession combined with the growth of the workforce means that the gains of the previous business cycle have been completely blown away.

"This is the only recession since the Great Depression to wipe out all jobs growth from the previous business cycle, a devastating benchmark for the workers of this country and a testament to both the enormity of the current crisis and to the extreme weakness of jobs growth from 2000-2007," said Shierholz in a statement.

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Venceremos!


O cartoonista Allan McDonald, detido pelo regime oligárquico restaurado pelo golpe militar, foi agora libertado graças à pressão internacional. Noutros tempos teria simplesmente desaparecido, como era prática entre os militares e oligarcas daquelas latitudes.
O golpe que embargou a democracia nas Honduras vem lembrar-nos que os militares continuam a ser a espada de Dâmocles que paira sobre as políticas democráticas e progressistas. Sem uma refundação do exército braço armado das oligarquias, qualquer política de esquerda está a prazo (Chávez bem o sentiu na pele).

O Investimento Público que eu gostaria de ter

Os investimentos públicos nosso país rimam com o novo aeroporto ou com o TGV. Ou, na modesta versão, com mais umas quantas auto-estradas que irão levar o tão almejado progresso ao nosso deprimido interior.
A discussão sobre como afectar os escassos recursos nacionais fica dividida em dois campos irredutíveis, ou seja, entre os amigos do investimento público e os inimigos deste.
Pela minha parte, sinto que sou avesso às dicotomias, gosto de me ver como o estranho, parafraseando o ensaísta Zygmunt Bauman, que não está fora nem dentro. O estranho é o elemento que vem perturbar o mundo ordenado e classificado em categorias diametralmente opostas.
Céptico daqueles dois grande investimentos, sou porém crente nas vantagens da modernização das linhas ferroviárias nacionais (desde a infância que amo os comboios, sentimento que nunca mais me abandonou). Mas não foram os comboios que me fizeram sair da modorra e descer (ou subir) até ao blog. Foram antes duas ou três coisas sobre as políticas para as cidade. E que têm a ver com o investimento público.
Gostaria de ver um plano nacional para a recuperação dos centros históricos cada vez mais deprimidos das nossas cidades (salvo raras excepções). O investimento público assim canalizado poderia gerar novas encomendas e emprego para a miríada de empresas de construção que operam à escala local e que hoje se debatem com muitas dificuldades. Teria a enorme vantagem de (re)orientar a actividade destas empresas para o sector da reabilitação. E centros históricos reabilitados atrairiam novos moradores, massa crítica para as cidades! E, com estes moradores, novas oportunidades de negócio (por exemplo, nas áreas da restauração) surgiriam! Enfim, acredito que haveria aqui um efeito multiplicador. Além disso, um plano desta natureza ajudaria a fazer recuar o paradigma do crescimento hoje dominante nas políticas autárquicas. Falo daquele crescimento imobiliário que tem desfigurado as nossa cidades, transformando-as em coisas descaracterizadas ou espaços suburbanos sem alma. Falo daquele crescimento que vê na paisagem natural um inimigo a abater e que vai comprometendo a nossa qualidade de vida. Teríamos mais desenvolvimento!
Sim, acredito nestas coisas. E sei, também, que por causa deste registo em tons impressionista serei apelidado de "socialista” pelo meu amigo aqui do blog.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Feira do Livro de Setúbal

 
"Centenas de publicações vão estar à disposição do público com preços especiais, entre hoje e 12 de Julho, numa tenda com 250 metros quadrados, instalada na avenida Luísa Todi, durante a Feira do Livro de Setúbal.
(...)
Todos os dias do certame, que estará aberto ao público entre as 10 e as 22 horas, vão ser praticados preços de feira, com descontos que rondam, em média, os 15 e os 20 por cento, além de promoções pontuais, que podem atingir os 40 por cento."

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Folhas Secas


Elis Regina

Quarta-feira, Junho 17, 2009

David Goldblatt






















Man with an injured arm. Hillbrow, Johannesburg. June, 1972

Imagens- África do Sul


Pelo fotógrafo David Goldblatt

Terça-feira, Junho 16, 2009

Irão em revolta


Imagens da revolta contra a teocracia.
Hossein Mosavi, um filho da revolução, corporizou o desejo de mudança de milhões de iranianos. Será o movimento encabeçado por Mossavi capaz de desencadear uma outra revolução? De sinal contrário àquela que desembocou no governo autocrático dos Mullahs? É difícil dar uma resposta, prisioneiros que estamos do tempo breve. E o tempo breve do acontecimento é propício a todas as ilusões! Mas sinal de que o regime leva a sério este movimento de revolta, foi a decisão de proceder à recontagem dos votos que foram a causa (epidérmica) do descontentamento. Talvez com o fito de esvaziar os protestos, mas não deixa de ser um sinal de recuo por parte do Ayatollah Ali Kamenei, que, num primeiro momento, se apressou a legitimar os resultados das eleições presidenciais que deram a vitória a Ahmadinejad. Quando as pessoas perdem o medo, os regimes tremem. E se este movimento popular vem, também, revelar poderosas fracturas no interior do regime iraniano, nada nos garante que o caminho seja o da recomposição. E não o da revolução.
Tempos interessantes na Pérsia/Irão.

P.S. Escolhi estas imagens, e não outras, porque nos mostram as semelhanças entre os homens. A Ocidente ou a Oriente, a mesma aspiração. Pelo menos no que toca à liberdade

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Bon Iver - Stacks


This my excavation and today is kumran

Everything that happens is from now on

This is pouring rain

This is paralyzed



I keep throwing it down two-hundred at a time

It's hard to find it when you knew it

When your money's gone

And you're drunk as hell

(...)

Stacks - Bon Iver, do álbum For Emma, Forever Ago

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Eleições Europeias - Reino Unido

A Inglaterra em estado de choque. Como se não bastasse o desastre eleitoral do Labour, o British National Party (extrema-direita) elege dois deputados para o parlamento europeu. Nunca tal tinha acontecido numa eleição nacional.

"There is real damage here to Britain because we have never elected fascists in a national election.
"Fascists in the European Parliament where I sit have long wanted members from Britain to join this transnational group so for those reasons there is deep concern that we have now crossed that threshold.
"There was a long period in which we could have said neo fascists would not be elected in Britain to represent us in an international parliament."
Claude Moraes, in A Unite Against Fascism press conference (Westminster ).

Ironicamente, nos (negros) anos trinta do século XX, o século dos fascismos, os cidadãos britânicos pouco crédito davam aos fascistas indígenas, o grupo de Oswald Mosley pouco mais era do que uma expressão folclórica, sem qualquer peso na sociedade britânica, segundo George Orwell. Enfim, O Reino Unido era o país que julgávamos mais ou menos imune ao crescimento dos fascistas, ao contrário da Europa continental, muito mais permeável a tais ideologias. Por isso, não é normal que no Reino Unidos os (proto) fascistas consigam eleger deputados no Parlamento Europeu, engrossando as fileiras dos extremistas de direita. Tempos difíceis.

Europeias, Setúbal e devaneios

No concelho de Setúbal, os resultados foram muito repartidos: o PS foi o partido mais votado, com 23,27% dos votos. Seguem-se, por esta ordem, CDU, PSD e Bloco de Esquerda, respectivamente, com 19,85, 19,50 e 16,13%.
Extrapolando para as autárquicas e em jeito de futurologia (sei que é um exercício um pouco exagerado), arrisco dizer que muito provavelmente assistiremos à eleição de um vereador por parte do Bloco de Esquerda. Lembro ainda que Setúbal passará a ter onze vereadores, em vez dos nove actuais.
Podem ver os resultados aqui.

P.S. No Distrito, a CDU foi a força mais votada.

P.S (2). Outras curiosidades, na Freguesia de São Julião, a minha área de residência, o Bloco ficou à frente da CDU.

Eleições Europeias - impressões

Boa prestação das esquerdas, com o Bloco a obter um resultado histórico, à beira de eleger o terceiro eurodeputado (só falta apurar o círculo da emigração), e a CDU a reforçar a sua votação.
Tiveram estas eleições europeias um forte pendor nacional: os eleitores que hoje (ontem) foram às urnas puniram o partido do governo, que registou um resultado muito fraco, abaixo dos 30%. O PSD venceu, mas a lógica da bipolarização parece estar em franco recuo (à direita, o CDS resiste, contrariando os vaticínios das sondagens).
Acima de tudo, o resultado destas eleições europeias vem alterar o clima político, quanto à inevitabilidade da vitória do Partido Socialista nas legislativas próximas. Ao contrário, tudo está agora em aberto, o que vem trazer maior dramatismo ao próximo acto eleitoral. Em tempo de crise duradoura.
No resto da Europa, a esquerda sofreu derrotas várias. O populismo (veja-se o resultado de Silvio Berlusconi) e a extrema-direita cresceram. Sombras sobre a nossa Europa.


P.S. Como se já não bastasse o falhanço das sondagens publicadas ao longo da campanha, ainda tivemos direito a mais do mesmo, com a publicação de sondagens sobre as legislativas….Enfim, é o mundo às avessas, pois em vez de se comentar factos políticos (neste caso, o resultado das europeias), comentam-se cenários virtuais, ainda para mais com inquéritos de opinião realizados antes deste acto eleitoral! Assim vai o nosso jornalismo.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Linhas Verticais


Norman McLaren

Gostei desta formulação

Talvez o horizonte seja o da Utopia. Em todo o caso, eu comungo do que aqui está escrito. Afinal, necessitamos de metas. E estas são boas.
Este Compromisso Eleitoral não pode ser acusado do pecadilho de esquecer as questões europeias/globais, em jogo nestas eleições. E não está eivado do nacionalismo costumeiro.

A candidatura apresentada pelo Bloco de Esquerda recusa quer o regresso ao proteccionismo, quer a "asiatização" das condições de trabalho na Europa para responder à concorrência no comércio internacional. Pelo contrário, sustentamos a urgência de um contrato mundial que, a exemplo do que defendemos para o combate ao aquecimento global, nivele "por cima" os direitos dos trabalhadores. Salários mínimos, horários máximos de laboração, descontos para a segurança social e direito de greve devem ser generalizados em todo o planeta. Em contrapartida, a Europa, os EUA e o Japão devem reconhecer aos países menos desenvolvidos o direito de protegerem as suas produções, e financiar os programas que compensem o custo social da abertura dos mercados.

O combate à pobreza e a defesa do poder de compra dos salários são a chave do relançamento das economias, do mesmo modo que o aquecimento climático é o horizonte que obriga à sua requalificação e mudança nos padrões de consumo. Uns e outro implicam uma nova ordem económica mundial onde os lucros se submetam à prioridade do emprego e da satisfação das necessidades colectivas.

Compromisso eleitoral da candidatura do Bloco às europeias

Tienanmen

Tienanmen foi há vinte anos. Tianamen foi a ponta do icebergue de um poderoso movimento social que afectou várias cidades da República Popular da China, envolvendo milhões de pessoas.

Os estudantes foram o actor primeiro de um movimento que não tinha um rumo político determinado, a não ser o da contestação aos privilégios e às práticas de corrupção da nomenklatura dirigente. A contestação alastrou também a outros grupos sociais, que comungavam das críticas que os estudantes dirigiam à elite política do país.

Foi um tempo em que o regime chinês esteve no fio da navalha. Quando um regime envia os tanques e o exército para suprimir uma revolta civil, é porque sente que o seu fim está próximo. De facto, o regime poderia ter implodido, se os militares não tivessem avançado sobre os estudantes da Praça de Tienanmen (veja-se o ocaso da União Soviética). Estudantes que durante as vigílias naquela praça chegaram a entoar a Internacional.

A história teve um final trágico: os tanques de uma unidade de elite do exército entraram em Tianamen e esmagaram a revolta estudantil, deixando atrás de si um rastro de destruição e morte.

Vinte anos depois, Tienanmen é como se não tivesse existido. O regime chinês sofisticou os métodos repressivos no quadro de uma economia capitalista pura e dura. E a China vive um processo de normalização. Milhões de chineses desfrutam da prosperidade do milagre económico. Pelo menos até à crise que agora assola o nosso mundo (a ver vamos qual o seu impacto no Império do Meio).

A China não é caso único. Ao invés, a história está cheia de exemplos de regimes autoritários que estão para a economia de mercado como peixe na água. Porque na História nada é adquirido. Democracia e autocracia/autoritarismo são pulsões que atravessam as sociedade humanas, em permanente tensão. O Fim da História é uma ilusão.

Esta entrevista do Público é interessante, destaco a seguinte frase:

O Partido protege os interesses da classe média em detrimento da maior massa populacional; há uma “conspiração” de elite para proteger os interesses da classe média face aos mais pobres.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Império

Em Império, Ryzard Kapuciski percorre as paragens remotas do que então era a União Soviética.
O livro está dividido em três viagens ou, melhor dizendo, duas, porque na primeira é o Império que vai ao encontro de Kapucinski ainda miúdo, em Pinsk, a sua terra natal, então ocupada pelos soldados do Exército Vermelho. Estávamos no ano de 1939.
Depois, percorremos as repúblicas da Ásia e do Sul do Império, não fosse o interesse primordial do escritor e jornalista a sorte dos povos colonizados. É o segundo período do livro, entre 1958 e 1967, em que Kaupucinski nos revela o que está para lá da ideologia. As culturas e tradições, breve, fragmentos do quotidiano dos povos que habitavam as terras da União soviética.
Por fim, o ocaso do Império, os últimos anos da Perestroika, entre 1989-91. Não são, porém, os meandros da política que ocupam Kapuscinki, mas sim as pessoas comuns. Captar as estórias destas e assim dar-nos um fresco do Império, eis todo o talento de repórter que era marca de Ryxard Kapuscinki. Esta imensa viagem termina onde começou: em Pinski,. Já não na Polónia de Kapucinski, mas na Bielorrússia.


Wanik Santrian leva-me pelos sítios mais recônditos de Jerevan, porque foi precisamente o que lhe pedi: que nos afastássemos dos caminhos muito frequentados. Assim, chegámos ao pátio de Benik Petrusian. O pátio, fechado nos quatro lados pelas paredes das casas circundantes, é o lugar da exposição permanente dos trabalhos de Benik. Benik tem vinte e oito anos, formou-se na Academia de Belas-Artes de Jerevan e é escultor. Pequeno e tímido, vive no seu acanhado estúdio, cuja porta dá, precisamente, para o pátio da exposição. Penduradas nas paredes estão umas magníficas cruzes de pedra, chamadas Khatchkars, que, no seu tempo, os arménios talhavam nas rochas. Os Khatchkars encontram-se ao comprimento e largura da Arménia, porque foram o símbolo da existência daquele povo, marcavam as fronteiras e , por vezes, indicavam o caminho.
(Jerevan – Arménia 1967).


Desde jovem, explica gritando e desatando num pranto, tive que trabalhar num serralharia. Toda a vida trabalhei o ferro.
[…]
Pequena e magra, Anna Andreievna, mulher de cabelo prateado e rosto marcado e pálido, agita, com raiva, diante de mim uns poderosos punhos de aço, dignos de qualquer torneiro que tenha trabalhado o ferro toda a vida.
E, no entanto, mesmo no meio da sua maldita sorte, acaba por encontrar um facho de luz, uma migalha de satisfação humana, pois passado um momento acrescenta:
Puseram-me mãos de homem, fizeram-me estalinista, mas nunca me fizeram comunista!
(Novogorod – Rússia 1990).

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Klaus Kinski


My Best Fiend - Werner Herzog

Sábado, Maio 30, 2009

Soy Cuba


O grande Mikhail Kalatozov fez este filme em Cuba, no ano de 1964. Era um filme que pretendia glorificar a gesta revolucionária do povo cubano.
Admiravelmente filmado, com referências a “Que Viva o México!” de Sergei Eisenstein, Soy Cuba é um poema visual. Com as marcas da intemporalidade.
Esta obra de Mikhail Kalatozov foi porém relegada para o limbo do esquecimento durante quase trinta anos, até ser resgatada por dois americanos muito respeitáveis. Falo de Martin Scorsese e de Francis Ford Coppola.

"O Homem Avaliado"

É assim que o filósofo José Gil vê o homem do século XXI. O Nosso tempo submetido aos tecnocratas da Avaliação e dos Recursos Humanos (outro grupo de interesses que, à semelhança dos executivos financeiros, não é devidamente escrutinado)que tudo querem reduzir a parâmetros quantificados.

A entrevista pode ser lida no Público:

P - Não se pode comparar, quantificar?

JG - Não. O que se põe agora nos parâmetros e critérios de avaliação, que se multiplicaram, é uma espécie de factores analisados, decompostos, daquilo que era o terreno da intuição. Por exemplo, mede-se a criatividade. Ora a criatividade o que é? O que é a produção do novo? Como é que se inventa? Quais são os processos de invenção?

Como sabemos, na ciência, a invenção está muitas vezes fora da escolaridade, do ensino, das regras. São as pessoas um bocado desviantes que fazem as maiores descobertas e depois tornam-se Nóbeis, etc. Isto tudo é abolido pelo controlo da avaliação. Quer dizer vai-se abolir a singularidade, a capacidade de inovação, porque se integra este terreno da intuição numa aferição da performance, do desempenho, que é quantificável.

[...]

O que aconteceu foi, portanto, uma inversão a ordem de subordinação aprendizagem/conteúdos, por um lado, e, por outro lado, a avaliação .Quer dizer que a avaliação multiplicou os seus parâmetros e absorveu o terreno da aprendizagem, de tal maneira que passou a ser o critério que vai definir a aquisição de conhecimentos, os resultados da aprendizagem, etc. Antigamente era o contrário. A avaliação, por um lado, já estava integrada e subordinada à formação do indivíduo e à aquisição de conhecimentos e integrada num, terreno em que se mexia também toda uma série de factores de que nós não podemos ter, felizmente, o controlo. Que são os factores da criação.

[...]

É uma questão de controlo e uma questão de poder. Isto não vai fazer desaparecer a inovação, não vai fazer desaparecer as grandes descobertas científicas. O que vai fazer é criar um hiato, uma separação cada vez maior. Vai haver uma elite hipercientífica, filosófica não sabe, hiperespecializada, e essa sim poderá inovar.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Frases...

"A crise é o resultado da ‘luta de classes contra os mais pobres’ realizada pelo sistema financeiro norte-americano com a cumplicidade do poder político".


Joseph Stiglitz


”E em breve poderemos estar perante o paradoxo dos salários: os trabalhadores de uma empresa podem ajudar a salvar os seus postos de trabalho ao aceitarem salários mais baixos, mas quando a generalidade dos empregadores corta salários ao mesmo tempo, o resultado é um aumento do desemprego”

Paul Krugman

Uma Regulação Muito Portuguesa

Portugal é um país onde existem reguladores, o que não faz de nós uma excepção. Nem na Europa, nem por esse mundo.
Mas os nossos reguladores afirmam o direito à diferença. O direito a ser a voz do dono. Ou, melhor dizendo, o direito a assumir como nossas as causas do governo. Do governo, seja ele qual for.
É a excepção portuguesa. Ou uma regulação apaixonada, se quisermos. Por isso, é sem surpresa que vemos o Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, elogiar o programa económico de Vital Moreira, o candidato do partido do governo às eleições para o parlamento europeu. Ou que vemos a Entidade Reguladora para a Comunicação Social condenar a TVI, por falta de isenção (“desrespeito das normas ético-legais aplicáveis à actividade jornalística”) na cobertura dos factos noticiosos associados ao Primeiro-ministro e ao governo em geral.
No caso da ERC, o dever de isenção termina onde acaba a esfera do governo. De pouco importam os partidos políticos, as associações ou as pessoas comuns. Estas últimas não raro são vítimas de linchamentos mediáticos às mãos da nossas televisões, sem que a ERC esboce qualquer gesto. Veja-se o caso da professora de história, cujo direito à reserva foi despudoradamente violado, através de imagens truncadas que entraram vezes sem conta pelas nossas casas adentro.
Mas imaginemos que os membros da ERC perseguiam sinceramente o fim de impor o dever de isenção a todos os órgãos de comunicação social. De um dever de isenção que eles, erradamente, confundem com neutralidade. Então não poderia haver imprensa alinhada, de esquerda ou de direita. Ou contra ou pró-governo. No limite, deixaria de haver jornalismo de causas. E a ERC necessitaria de um exército de funcionários para pôr na ordem os recalcitrantes. Teríamos um mundo asséptico.



P.S. Pegando no caso da menina russa, que tanto tem inflamado a opinião pública. Seria mais um caso em que os membros da ERC teriam necessariamente de intervir, pois a linha editorial dos medias em nada tem sido favorável à mãe biológica. Chegou até ao ponto de erigir umas simples palmadas em argumento supremo da prática de maltratos. Ora, não haveria aqui, também, um dever de intervenção dos senhores que velam por aquilo que vemos, ouvimos e lemos?

Se a tal estiverem dispostos...

... podem ligar a Rádio Europa Lisboa em 90.4 FM, hoje pelas 18:00 horas e ouvir o programa "Descubra as Diferenças".
Hoje
à conversa com a Antonieta Lopes da Costa e o André Abrantes Amaral estarão o Miguel Botelho Moniz e este vosso escriba.

O tempo passou depressa enquanto falávamos sobre:

Autoeuropa e BPN – A Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa ainda não aceitou as propostas de flexibilização laboral apresentadas pela administração da empresa. Será impossível conciliar direitos e trabalho? No seguimento das declarações de Oliveira e Costa, Dias Loureiro demite-se finalmente do Conselho de Estado, já vem tarde? E Vitor Constâncio, devia também demitir-se?

- Europa ao rubro – A campanha eleitoral para o Parlamento Europeu está na rua e os candidatos trocam as normais acusações entre si. Entretanto, a Comissão Europeia pediu explicações ao governo português sobre os ajustes directos entre o Estado e as empresas que fornecem o computador Magalhães. O que mais podemos esperar da Europa?

- Ordens profissionais – O Bastonário da Ordem dos Advogados afirmou existirem advogados que praticam actos ilícitos e voltou à carga numa entrevista explosiva concedida, há dias, à TVI. O que pretende Marinho Pinto?

No fim, lá ficou a música que sugeri tendo em conta este período eleitoral.

Adenda: Já está disponível a gravação em podcast do programa.: 1ª Parte e 2ª Parte

Escolhidos a dedo

Quando Mário Soares foi escolhido como candidato oficial (por oposição ao alternativo candidato do “milhão de votos”) do PS às presidenciais, não consegui deixar de entreter o pensamento que tal tinha sido uma escolha estranha. Porque raio haveria José Sócrates de apoiar quem, meses antes, tinha participado activamente na campanha de João Soares (seu filho) para o lugar de Secretário-Geral do PS. Se não me falha a memória foi até uma campanha assaz aguerrida (também o alternativo candidato do “milhão de votos” participou).
O resultado das presidenciais foi o que foi para o PS.
Novas eleições, nova escolha de candidato. O PS, guiado de forma inquestionável por José Sócrates, escolhe Vital Moreira para cabeça-de-lista. Um intelectual ex-comunista (pecado ultra capital para quem ainda o é) com um discurso e imagem pública a condizer.
Passados que são os primeiros dias de campanha, começam a acumular-se os momentos menos felizes do candidato. Contradições com a liderança, propostas desalinhadas com a posição da direcção partidária, prestações menos felizes nos debates televisivos. E ainda falta mais de uma semana.
Serei só eu ou mais alguém pensa que José Sócrates não tem feito nenhum favor ao PS com as suas escolhas de candidatos?

Já colocado no Insurgente.

Domingo, Maio 24, 2009

Leituras sobre carris



Nice Work - David Lodge

O título em português é "Um Almoço Nunca É De Graça".

Quarta-feira, Maio 13, 2009

Suponhamos que...

 
"Jorge Santana candidato independente à Câmara Municipal de Setúbal pelo PSD almoçou anteontem com Carlos de Sousa, ex-presidente da Câmara de Setúbal, que renunciou ao cargo durante o actual mandato e desfiliou-se há poucos meses do PCP. "
 
Pelos vistos, há quem se lembre dos resultados eleitorais de Carlos Sousa e do peso que o seu nome pode ter na população que ainda não esqueceu a maneira alarve como o PCP tomou para si o poder de alterar os votos dos cidadãos e entregar a gestão do munícipio a uma camarada escolhida sabe-se lá como de entre a pool de obedientes camaradas. O que leva a à consequente pergunta (levantada também nos comentários da notícia citada): que aconteceria se Carlos Sousa quisesse avançar com uma lista de candidatura à CMS?

Terça-feira, Maio 12, 2009

Lembram-se do Professor Balthazar?


Para lembrar o Vasco Granja.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Reflexões desordenadas sobre a violência urbana, com a Bela Vista em pano de fundo

Há alguns equívocos nesta coisa de associar a pobreza à violência social e urbana, algo que a esquerda e mesmo muitos outros fora do espectro desta têm feito até à exaustão, a ponto de não mais se distinguir de um qualquer dogma. Neste caso de um dogma feito da vulgata das ciências sociais. É indulgente e socialmente muito perigoso.
Não estou com isto a dizer que a pobreza e as injustiças sociais não contribuam para eclosão da revolta e dos fenómenos de violência que por vezes lhe vêm associados. Apenas sustento que as relações (entre pobreza e comportamento criminoso ou violento) não são lineares ou simples. E nem sempre evidentes, pois múltiplas são as causas da violência (estou aqui a circunscrever este conceito aos fenómenos de criminalidade urbana grupal, envolvendo jovens, e não às formas de violência simbólica que grassam na nossa sociedade).
Sinto que, perante acontecimentos como os ocorridos agora na Bairro da Bela Vista, nos socorremos dos discursos de sempre, como se estes nos pusessem a salvo da realidade. Como se estivéssemos a brincar às ideologias. Assim, se somos de esquerda, a culpa é das (iníquas) políticas do Estado que geram cada vez mais desigualdade e injustiça, e que, enquanto não combatermos eficazmente estas causas, a criminalidade persistirá. Se somos de direita, dizemos grosso modo que a culpa é do estado social, da brandura das leis penais e da imigração sem freio.
Em suma, a esquerda pensa que resolve o problema com mais e melhores políticas sociais; a direita, com leis mais duras e mais polícias na rua.
É honesto reconhecer que, sobre esta temática, o discurso da esquerda é largamente dominante no espaço público, a ponto dele fazerem eco actores de outros espaços ideológicos e culturais (vide, por exemplo, o caso de figuras da Igreja Católica). Mas convém não perder de vista que o discurso da direita alastra perigosamente entre os que não têm voz, aqueles que se sentem mais directamente afectados por este tipo de criminalidade urbana. E isso poderá dar origem a movimentos populistas, como os que existem por essa Europa fora.
Situando-me algures nas esquerdas da esquerda, não deixo porém de entrever os limites das políticas sociais. Não estou a dizer que estas não tenham produzido resultados (ainda que a espuma dos dias tenda a ocultá-los), ou que não sejam necessárias mais políticas e programas desta natureza, em face dos problemas que enfrentamos. Estou a falar dos limites de tais políticas. Que podem estas políticas perante uma sociedade desprovida de valores éticos, cuja referência última é a acumulação material de riqueza material ou o consumo desenfreado? Que podem estas políticas perante uma economia de casino com o seu cortejo de enriquecimento ilícito, de corrupção e de toda a sorte de malfeitorias (vide os banqueiros e os executivos da alta finança)?
Importa, também, reconhecer que existem limites que não radicam nas instituições societais, mas sim na natureza humana. Por mais perfeitas que sejam as políticas sociais, por mais recursos que mobilizem, elas nada podem contra o lado sombrio da natureza humano. Contra o fascínio que a violência exerce em muitos de nós, a ponto de ser uma espiral da qual não conseguimos sair. E da qual retiramos prazer! Infelizmente, não somos o bom selvagem de Rousseau. Isto, que se aplica à vida do gangue, foi algo de que nos esquecemos. Nós, os de esquerda, os cientistas sociais (embora não os historiadores militares nem os antropólogos) e ainda as muitas consciências bem pensantes no conforto da sua existência. Em Portugal e na Europa.
Ora, para fazer face a grupos cada vez mais violentos e ousados, é necessário contar com forças policiais eficazes e actuantes. Não bastam as políticas sociais, a polícia também é parte da solução! A esquerda não deveria ter complexos quanto a isso!
Eu confesso, pela minha parte, que gostaria de viver num mundo em que não houvesse Estado, mas reconheço que a alternativa (imediata) poderia ser bem pior. Prefiro o Estado a um mundo dominado por gangues. E penso que os moradores da Bela Vista também.

Desculpem lá qualquer coisinha

Via DD:
 
"Apenas um dos cinco detidos durante uma tentativa de assalto ao Intermarché do Carregado habita perto da Bela Vista, na Avenida Bento de Jesus Caraça, contígua a este bairro.
Os outros detidos moram noutros bairros de Setúbal: Manteigadas, Miradouro, Cooperativa de Habitação da Praça de Portugal e um outro no Seixal.

Segundo a polícia, os cinco homens já estavam a ser investigados por roubos com armas de fogo a viaturas. Em comunicado divulgado no domingo, a PSP afirmou que os jovens agora detidos, com idades entre os 20 e os 25 anos, formavam um «grupo perigoso de assaltantes que operavam na margem sul e área metropolitana de Lisboa»."

Coitadinhos.
Claramente não foram suficientemente acarinhados pelos cientistas sociais que os meus impostos pagam.

Já alguém lhes pediu desculpa?